
Aqui deixo um texto que julgo bem ilustrar uma época da história de Portugal. Este texto é um excerto do livro Hotel Lusitano de Rui Zink, uma conversa entre 1 português e 2 americanos numa mesa de café:
«« - Notem bem. Até há bem pouco tempo, Portugal era uma ditadura. Havia uma polícia secreta tipo Gestapo (embora mais tosca) que prendia e torturava gente. Havia uma guerra em África em territórios de tal modo maiores do que o nosso que mal os conseguiamos administrar, quanto mais dominá-los militarmente. Essa guerra durou 13 anos e foi-nos tão letal como o vosso Vietname, com a diferença de que graças ao seu fracasso todo um regime foi derrubado. Nos Estados Unidos nem um governo caiu, mau grado os estragos na sua boa imagem.
Isto era Salazar, embora ele já tivesse morrido havia alguns anos quando se deu a revolução. O país vivia miserável, desde 1960 que as pessoas, sobretudo da província, emigravam aos milhares para França, Alemanha (e, das ilhas dos Açores, para os EUA). Mas não se emigrava só para fugir à fome, emigrava-se para fugir à guerra. Escusado será dizer que os partidos estávam proibidos, com especial relevo para o mais forte e mais activo, o Partido Comunista.
Agora reparem. É 1973: as pessoas estão descontentes por causa da falta de condições de vida, já há mais de um milhão de emigrantes, e isto só em França, só ao redor de París, o que corresponde a, nada mais nada menos do que 10% da população. A guerra continua a encomendar soldados para com eles fazer churrasco, embora toda a gente a saiba perdida há anos. E o exército, viva e reviva, também está descontente. Motivos principais: a) problemas hierárquicos; b) desgaste da guerrilha em Angola, Moçambique e Guiné; c) uma certa tomada de consciência dos factos, quer dizer, de consciência politica, por parte dos oficiais mais novos e, d) tão importante como o resto, a ressaca simbólica da derrota americana no Vietname. Ou seja, aquela malta começou a reflectir que, caramba, se até os américas, com todo o seu materal supersónico, tinham ido pelo ar, então como é que nós a mexer cangalhos da 2ª guerra mundial iamos ganhar aquela porcaria aos turras, aos sacanas dos pretos, que conheciam o mato, o capim, a selva, como ninguém?
- E se não me engano, o exército é que vai dar o golpe - disse Larry que também fizera as suas leituras.
- Exacto, não se faz nada sem o exército, hoje em dia (...) e é talvez por isso que em lado nenhum se faz grande coisa. Mas o facto é esse: em Março de 1974 os tropas fazem uma tentativa de sublevação em Caldas da Rainha, que saiu abortada, mas que serviu de teste à impotência do Governo. Surge então, obviamente, pouco mais de 1 mês depois o golpe, esse, sim, com cabeça, tronco e membros. E decisivo. O Governo é derrubado quase sem efusão de sangue. Espontaneamente ou habilmente induzida, a população de Lisboa adere ao golpe militar.
- E foi só assim a revolução?! - perguntou Larry com cepticismo.
-Foi. No dia seguinte, os presos politicos foram todos libertados, incluisive os comunistas, que, como era natural compunham o grosso deles. Formou-se um governo de salvação nacional, constituído por milhares que mais tarde viriam a revelar-se divididos pelas mais variadas tendências. Dias depois, era anunciada a legalização dos partidos.
Resumindo e concluindo os meses que se seguiram foram dominados por um entusiasmo contagiante. Houve a caça aos membros da ex-policia secreta, que tanto terror tinham inspirado, as campanhas de esclarecimento nas zonas mais isoladas do País, em que se ia de camioneta e se anunciava a Boa Nova da Revolução com um megafone roufenho ( e primeiro que as populações percebessem que não se tratava de uma campanha de circo...). Foi uma época divertida. Aliás foi nessa altura que conheci a Arminda, numa campanha de alfabetização no Norte. Vocês sabiam que em 1974 este país tinha 1/3 de analfabetos?
- Só não percebo - disse Larry - por que falas em revolução e não apenas em golpe....
- É que a principio tratava-se, efectivamente, de um golpe. Mas depois, através do efeito bola de neve, ganhou proporções sociais que ninguém, nem sequer os militares, conseguiu controlar. A dada altura eles viram-se ultrapassados pelos acontecimentos, nunca lhes passara pela cabeça que a adesão popular fosse tão grande.
- Quer dizer que toda a gente aderiu? - intervim.
- Não, como já vos disse, no campo havia pessoas que 2 meses depois ainda não sabiam o que tinha acontecido. Mas nos principais centros urbanos, onde havia operários (e portanto tradição de lutas sindicais), a adesão foi muito elevada. Produziu-se uma mudança profunda na estrutura social. Não se tratou de uma mera transmissão de poder para outras mãos. Por exemplo, durante uns tempos foi um autêntico carnaval: os trabalhadores fizeram as greves todas que tinham andado a protelar desde havia 50 anos.
Por exemplo, no tempo do fascismo eu não poderia estar aqui a falar destes assuntos, em voz alta, à mesa de um café. Havia os denunciantes, que davam a impressão de estar em toda a parte.»»